Há algum tempo venho acompanhando as discussões sobre inteligência artificial com uma sensação estranha, uma percepção, na verdade. Tenho percebido que, quanto mais a tecnologia avança, mais a conversa tende a voltar para um lugar antigo: o que, afinal, é uma pessoa?
Eu trabalho com tecnologia há mais de vinte anos. Vi sistemas chegarem com a promessa de mudar tudo e vi muitos deles virarem rotina e alguns até já morreram. Mas esta onda que estamos vivendo com a IA (que mais parece um tsunami) tem algo diferente. Ela não entra só nas fábricas, nas planilhas ou nos servidores. Ela entra na escrita, na conversa, na análise, na criação. Entra naquilo que, por muito tempo, a gente achou que era exclusivamente nosso.
E é aqui que a minha percepção estranha se transforma cada vez mais numa convicção: a inteligência artificial veio para nos desafiar a ser mais humanos. Não porque ela seja boa ou má, ou porque a tecnologia nos torna melhores automaticamente, mas porque, ao assumir parte do que fazíamos no automático, mesmo dentro daquilo que parecia ser “exclusivamente nosso”, ela nos coloca diante de escolhas que não devemos e não podemos delegar.
O que a máquina faz bem
Vamos ser honestos sobre a força dela.
Ela pode resumir um documento de cem páginas em instantes. Escrever um e-mail padrão em segundos. Organizar dados, identificar padrões, responder perguntas frequentes e, quando integrada às ferramentas adequadas, executar etapas inteiras de processos.
Ela faz tudo isso em uma escala e velocidade que seriam inviáveis para uma pessoa trabalhando sozinha.
Veja, o debate aqui não é se ela faz tudo corretamente, sabemos que a inteligência artificial erra, alucina, inventa informações, interpreta mal os pedidos e precisa de supervisão. Não é sobre isso. É que seu alcance já tem ido muito além da repetição: ela já participa de atividades criativas, analíticas e de resolução de problemas complexos.
Some isso ao fato de que, quando as tarefas exigem processar grandes volumes de informação, seguir procedimentos definidos e produzir resultados rapidamente, a IA sempre vai ganhar da gente. Competir em velocidade e volume não parece um bom caminho.
Então, se boa parte do nosso dia de trabalho era feita de atividades repetitivas que a IA vai fazer por nós e o uma outra parte por atividades “exclusivamente nossas” que a IA também está invadindo, onde isso vai parar?
É o fim? Seremos substituídos? Talvez, se continuarmos sendo pessoas que viviam como máquinas!
Mas se voltarmos o nosso olhar para o que é ser um humano de verdade, pode ser que encontremos as respostas que todos estão buscando, ou pelo menos um caminho diferente de apenas esperar a Matrix ou a Skynet se concretizarem.
Teremos cada vez mais tempo para isso, não será esse o problema. O problema será não saber aproveitar o tempo que virá, correndo o risco de transformar essa grande oportunidade em uma simples busca por mais produtividade e mais resultados.
A tecnologia pode liberar tempo. O que fazemos com ele é outra decisão.
Então, o que pessoas e empresas, pequenas e grandes, devem fazer com o tempo que vai sobrar?
Longe de mim querer ter a resposta para tão grande imbróglio, mas posso lançar algumas reflexões para o meu caro leitor, não?
O que não deveríamos delegar
Aqui a filosofia ajuda, porque a pergunta não é nova.
Aristóteles distinguia, entre outras formas de saber, a técnica (techné) e a sabedoria prática (phronesis). A primeira está relacionada à capacidade de produzir algo: construir uma casa, exercer um ofício, realizar uma tarefa com conhecimento. A segunda envolve deliberar bem sobre como agir diante das circunstâncias da vida.
A técnica nos ajuda a responder “como”. A sabedoria prática nos obriga a perguntar também “para quê”, “para quem” e “a que custo”.
Uma inteligência artificial pode auxiliar nas duas coisas. Pode executar tarefas e até apresentar argumentos sobre decisões difíceis. Mas oferecer uma resposta não é o mesmo que assumir suas consequências. A responsabilidade por aquilo que decidimos fazer com essas respostas continua sendo uma questão humana.
Hannah Arendt, no século vinte, distinguiu três atividades fundamentais da vida humana: o labor, ligado à manutenção da vida; a obra, que produz um mundo de coisas relativamente duráveis; e a ação, que acontece entre pessoas, na pluralidade da vida compartilhada.
Para Arendt, agir envolve a capacidade humana de iniciar algo novo. Cada nascimento representa a possibilidade de um começo imprevisível.
A inteligência artificial também pode gerar novidades. Pode criar combinações inesperadas, produzir ideias e iniciar procedimentos. Mas isso não equivale, por si só, à ação no sentido que Arendt descrevia: a iniciativa de alguém que entra no mundo compartilhado, se relaciona com outras pessoas, capta nuances, liga pontos, tem ideias e participa das consequências do que começa.
É essa dimensão que não quero perder.
Martin Buber escreveu sobre dois modos fundamentais de relação com o mundo. Na relação Eu-Isso, conhecemos, descrevemos, classificamos e utilizamos aquilo que encontramos. Na relação Eu-Tu, encontramos o outro em sua singularidade, sem reduzi-lo a um conjunto de características ou a uma função.
Os dois modos fazem parte da vida. O problema começa quando toda relação se reduz à utilidade, ou seja, quando transformamos, ainda que sem perceber, uma relação com outra pessoa em uma relação com alguma coisa.
A leitura que eu faço é que, de alguma forma, a IA, sendo essa ferramenta extraordinariamente sofisticada, capaz de conversar, responder e até produzir uma sensação de companhia, vai acabar escancarando esse movimento, tão normal na sociedade atual, de transformar o Eu-Tu em Eu-Isso.
Faço essa leitura porque acredito que, mais cedo ou mais tarde, as pessoas não vão poder confundir a experiência proporcionada pela IA com a experiência do encontro humano, sob o risco até mesmo de adoecerem.
Uma resposta bem construída pode ajudar muito, em diversos aspectos da vida pessoal e profissional. Ainda assim, existe algo diferente e único em estar diante de um alguém que tem alma, coração pulsante e cuja história também está em jogo, alguém com quem compartilhamos a vida, alguém que consegue absorver um olhar e a carga sentimental que ele carrega, alguém que possa compreender e compartilhar os riscos e as consequências das nossas escolhas.
Simone Weil escreveu, numa carta a Joë Bousquet, em 1942:
“A atenção é a forma mais rara e mais pura da generosidade”.
A frase me acompanha.
Existe uma diferença entre processar milhares de informações por segundo sobre alguém e dedicar atenção a essa pessoa como um gesto de cuidado. A primeira coisa pode ser realizada por sistemas computacionais. A segunda, no sentido de Weil, envolve uma relação com o outro que não se esgota na qualidade de uma resposta.
A atenção de verdade custa. Exige interromper o que estamos fazendo, ouvir, reconhecer uma necessidade que talvez não seja a nossa. Não dá pra simplesmente abrir um outro chat ou criar um agente na nossa cabeça para fazer isso em paralelo às atividades cotidianas.
Enfim… a IA pode facilitar o acesso ao conhecimento, pode ensinar procedimentos, explicar conceitos e ajudar alguém a estudar, mas jamais vai substituir o olhar que tem Ânima, que tem vida e consegue ensinar sem dizer uma palavra.
OK. Entendi a diferença, mas como a IA nos tornará mais humanos a cada evolução?
Veja! Esses pensadores não estavam discutindo os modelos de inteligência artificial que usamos hoje. Seria um erro fingir que anteciparam nossas tecnologias ou resolveram todas as questões que elas levantam.
O que eles oferecem são caminhos para pensar um problema que talvez seja muito mais antigo que parece: a necessidade do Homem de deliberar sobre o bem, iniciar e conduzir suas ações com responsabilidade, reconhecer o outro, dedicar atenção e aprender em relação com o mundo.
Para mim, o paradoxo é justamente a visão de que a tecnologia está nos convidando a redescobrir exatamente tudo isso.
SAIR DO AUTOMÁTICO
Eu vivi parte disso na prática antes de conseguir explicar. São 20 anos no mundo corporativo, atuando nas mais diversas frentes de comunicação, marketing, produtos digitais e gestão de projetos e processos de trabalho em empresas.
Pense em construção de fluxos, automações, integrações, migrações. Muita gente imagina que o resultado desse trabalho é o sistema funcionando.
Mas aprendi que esse é apenas um dos resultados.
Muitas vezes, quando uma automação ficava pronta, aparecia por trás dela uma conversa que ninguém tinha tido: quem decide isso? Por que esse passo existe? O que fazemos quando a regra não serve?
A máquina retirava o repetitivo, e o que ficava exposto era o humano: decisão, papéis, confiança, conflito, responsabilidade. Algumas equipes floresciam nesse espaço, outras me fizeram descobrir que o repetitivo escondia problemas que ainda precisavam ser discutidos.
E é nesse momento que a resistência surge com força. Surge porque o automático, convenhamos, pode ser bem confortável. Responder sem pensar é descansado. Repetir a fórmula parece seguro. Fazer o relatório de sempre não exige muita coragem.
Sair do automático exige.
E com a inteligência artificial, vejo esse mesmo movimento acontecendo em atividades que antes pareciam depender inteiramente de nós, coisas que estávamos levando no automático sem sequer perceber ou até saber que era possível.
Quando a IA faz isso, transforma a maneira como executamos tarefas e nos obriga a reconsiderar o valor de tudo o que fazemos.
O trabalho com IA exige escolher o que merece nossa atenção. Exige perguntar melhor, porque até a melhor ferramenta pode responder mal a uma pergunta mal formulada. Exige saber questionar a resposta, porque uma explicação convincente não é necessariamente verdadeira.
Exige decidir mesmo quando a informação é incompleta. Exige dizer não para a novidade que não resolve nada e dizer sim para a pessoa que precisa de você agora.
O filósofo Martin Heidegger alertava, nos anos cinquenta, para um risco da técnica moderna: não apenas o uso das máquinas, mas a maneira como passamos a enxergar o mundo. Tudo pode começar a ser percebido como recurso disponível, algo a organizar, calcular e explorar. Até as pessoas.
Eu penso nisso toda vez que leio que alguém “foi substituído”.
Sim, tarefas podem ser automatizadas, postos de trabalho podem desaparecer, e uma pessoa pode, sim, perder seu emprego por causa de transformações tecnológicas. Não seria justo minimizar essa realidade.
Mas perder uma função não significa perder o próprio valor.
Uma pessoa é muito mais do que a atividade que executa, o cargo que ocupa ou a produtividade que entrega. Há uma história ali, vínculos, capacidades e possibilidades que não cabem em um job description.
O desafio não é fingir que a tecnologia não provoca perdas. É garantir que, mesmo diante dessas transformações, não deixemos de enxergar as pessoas.
Reaprender o que já sabíamos
A boa notícia é que não precisamos começar do zero. Precisamos apenas nos lembrar…
Lembrar de fazer perguntas de verdade, daquelas que a gente não sabe responder. Lembrar de ouvir até o fim. Lembrar de escolher, com nome e sobrenome, por que estamos fazendo o que fazemos.
Lembrar também que tecnologia não elimina responsabilidade. Uma ferramenta pode sugerir, escrever, calcular e executar ações. Mas seu uso envolve escolhas e deveres que precisam ser assumidos pelas pessoas e instituições responsáveis por desenvolvê-la, disponibilizá-la e utilizá-la.
Lembrar, ainda, que ninguém precisa saber tudo. A tecnologia muda rapidamente, e vai continuar mudando. É impossível acompanhar em tempo real. Tudo bem não saber por onde começar. Tudo bem precisar de ajuda.
O que não podemos é abrir mão da nossa própria capacidade de pensar e decidir, e é aí onde eu acho que o mercado separa os homens dos meninos.
A seleção natural do mercado acontece assim: quem entrega melhor, cresce mais e mais rápido. E pra entregar melhor é preciso pensar e saber tomar boas decisões. O mercado sempre foi assim, não é a IA que está mudando isso.
A IA só está potencializando, acelerando e evidenciando o que já estava aí antes dela. Mas ela também trás consigo uma oportunidade ímpar de transformar mais meninos em homens, porque amplia o hall de possibilidades de maneira exponencial a todos que querem aprender algo novo ou se aprofundar para serem profissionais melhores.
É como o mundo antes e depois da Internet, do Google ou das Redes Sociais. São ferramentas, cada vez mais poderosas, mas no fim das contas, a discussão é sempre sobre pessoas.
Há uma frase que virou o princípio fundador da nossa nova identidade, e que eu gostaria que você levasse deste texto, mesmo que esquecesse todo o resto:
Em um mundo de bilhões de pessoas e tecnologias cada vez mais poderosas, nenhuma evolução deveria nos fazer esquecer o valor de uma única pessoa.
Uma única pessoa. Não o mercado, não o público-alvo, não o usuário abstrato. A pessoa que está lendo isto, com as suas dúvidas, o seu ritmo e a sua história.
É nisso que a Sprintum acredita
É por tudo isso que a Sprintum está mudando. E eu quero contar sem alarde, porque não se trata de anunciar uma revolução. Trata-se de assumir um compromisso.
A Sprintum nasceu para ajudar empresas e profissionais a organizar projetos, com métodos ágeis e ferramentas de gestão. Começamos como uma Escola de Projetos, e ainda o somos.
Mas nosso trabalho passou a envolver outras frentes: educação em inteligência artificial, desenvolvimento de ferramentas, automação e apoio a equipes que precisam adotar novas tecnologias com consciência e autonomia.
Então decidimos dar nome ao que queremos construir daqui em diante.
A Sprintum passa a se apresentar como uma empresa de Educação e Soluções em Tecnologia, com um propósito que cabe em uma frase:
Tecnologia que desenvolve pessoas.
Não é tecnologia pela tecnologia. É tecnologia a serviço de alguém se tornar mais capaz.
A nova assinatura traduz essa intenção:
Mais humanos a cada evolução.
Cada vez que a tecnologia avança, queremos que as pessoas tenham a oportunidade de avançar junto. Mais capazes de pensar, criar, decidir. Mais presentes. Mais conscientes das consequências do que fazem com as ferramentas que têm nas mãos.
O “um” que está no nosso nome também ganhou um sentido especial.
Sprint é o ciclo curto, o movimento que transforma planejamento em ação. O “um”, para nós, representa o primeiro passo. E representa também a pessoa, a unidade que não se dilui na multidão.
Começar de onde se está. Uma pessoa de cada vez.
Algumas coisas passam a orientar nosso trabalho, e você pode nos cobrar por elas.
Queremos fugir de qualquer linguagem do medo. Ninguém precisa se sentir ameaçado de “ficar para trás” para merecer atenção ou aprender uma tecnologia.
Não queremos vender fórmulas milagrosas, porque não existem.
Não queremos que você dependa de nós para sempre. O sucesso do nosso trabalho é contribuir para que você desenvolva autonomia e precise cada vez menos da nossa ajuda.
E assumimos a nossa parte de responsabilidade. Ensinar tecnologia também é ensinar seus limites, seus riscos e as consequências de sua utilização.
A promessa é simples: você não precisa dominar a tecnologia para começar. Mas deve sair daqui mais capaz de utilizá-la.
Um brinde, sem euforia
A tecnologia é extraordinária. As pessoas, mais ainda.
Esta frase poderia ser um slogan, mas prefiro que seja uma lembrança.
Lembrança de que cada ferramenta nova pode abrir possibilidades, mas também trazer desafios. De que fazer algo mais rápido não significa necessariamente fazê-lo melhor. E de que o tempo, a atenção e as capacidades que conquistamos com a tecnologia precisam encontrar algum sentido na vida que queremos construir.
Nada disso acontece sozinho.
Depende de escolhas, de atenção e da maneira como tratamos uns aos outros.
Então é isso que estamos comemorando hoje, com um brinde de gente adulta: sem fogos, sem contagem regressiva, sem promessa de que amanhã tudo estará resolvido.
Comemoramos uma decisão. A de colocar as pessoas antes da tecnologia, em tudo o que fizermos daqui em diante.
Seja muito bem-vindo à nova Sprintum.
Comece de onde você está. O próximo passo é sempre possível.
Se este texto fez sentido para você, o lugar natural para continuar é o manifesto da marca, na página sobre a Sprintum.
E se você está começando com inteligência artificial, o e-book IA para Iniciantes foi escrito para quem quer dar o primeiro passo sem pressa e sem vergonha de perguntar.
Nos vemos na próxima parada dessa jornada.