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O silêncio que adoece: por que precisamos falar de saúde mental

Reflexão no Setembro Amarelo: números alarmantes mostram a urgência de falar sobre saúde mental, ansiedade, depressão e prevenção do suicídio.

Tiago Santos 4 min de leitura
Imagem com o título do artigo e o laço amarelo, símbolo do Setembro Amarelo.

Hoje acordei com uma cena que mexe com qualquer um.

Uma jovem, pouco mais nova que eu, se jogou do quinto andar no prédio à frente da minha varanda. Foi um despertar triste, que me fez pensar, logo pela manhã, sobre a vida, a morte, sobre o peso silencioso que muitas pessoas carregam e sobre a importância de falarmos de saúde mental abertamente.

Não trago isso para dizer que eu sou forte ou que minha equipe está blindada (quem está?). Trago porque é urgente que caiam quaisquer tabus. O problema muitas vezes está mais perto do que imaginamos, e neste Setembro Amarelo me sinto no dever não só de lembrar, mas de avivar o diálogo e a conscientização.

Números da saúde mental que assustam

  • No Brasil, foram registradas 11.502 internações por tentativas de suicídio em 2023, uma média de 31 casos por dia. Fonte: Agência Brasil
  • Entre os jovens, a taxa de suicídio cresceu cerca de 6% ao ano entre 2011 e 2022, e os casos de autolesão na faixa de 10 a 24 anos cresceram 29% ao ano no mesmo período. Fonte: Fiocruz
  • 68% dos brasileiros relatam sentir nervosismo, ansiedade ou tensão, mas mais da metade (55,8%) nunca buscou ajuda profissional. Fonte: CNN Brasil
  • 26% dizem já ter sido diagnosticados com transtorno de ansiedade. Fonte: CNN Brasil
  • Um estudo da Ipsos mostra que 45% dos entrevistados afirmaram sofrer de ansiedade, e 19% relataram depressão. Fonte: Ipsos, Calendário da Saúde 2024
  • A depressão afeta aproximadamente 15,5% da população ao longo da vida no Brasil. Fonte: Ministério da Saúde
  • A OMS indica que mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio no mundo a cada ano, sendo uma das principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Fonte: OMS / Ministério da Saúde

Esses números nos lembram com dureza: o sofrimento não avisa sobre sua chegada. Ele apenas chega, se instala e cresce, às vezes no mais absoluto silêncio.

Ansiedade não é depressão (mas estão relacionadas)

É importante destacar duas coisas que muitas vezes geram confusão:

  • Ansiedade nem sempre é transtorno. Pode ser uma reação pontual ao estresse, com manifestações físicas (tensão, inquietude, preocupações excessivas etc.). Só se torna transtorno quando interfere de forma significativa na rotina.
  • Depressão vai além de tristeza ou cansaço: envolve perda de energia, desinteresse, culpa persistente, alterações no sono e no apetite e dificuldade de concentração.

Muitas pessoas têm ambos os quadros simultaneamente. A presença de ansiedade pode aumentar o risco de evoluir para depressão ou complicar o tratamento. E é fundamental lembrar: quem sofre não necessariamente aparenta estar em crise. Há dias bons, dias ruins, e muitos momentos em que tudo parece bem, mas por dentro há um turbilhão.

O que podemos fazer, como sociedade e como rede

Atenção: não sou especialista nem sou da área de saúde, mas quero usar este espaço para deixar algumas convicções que formei ao longo dos anos em que pesquiso sobre o assunto:

  1. É preciso conversar sobre sofrimento mental. Muitas vezes achamos melhor não perturbar, não incomodar, mas às vezes tudo o que a pessoa precisa é que você siga na direção contrária. Se você perguntar a alguém “como você está de verdade?”, provavelmente ouvirá um “tá tudo bem”, mas perguntar não dói e pode abrir espaço para compartilhar algo guardado, mesmo que superficialmente.
  2. É preciso abrir espaço para escutar sem julgamento. Entenda que você é apenas um elo de uma corrente maior, não necessariamente aquele que vai resolver o problema. O objetivo não deve ser resolver nada, mas apenas deixar o outro sentir que é visto, acolhido.
  3. Preste atenção a quem está ao seu redor. Observe os sinais de alerta: mudanças no apetite, no sono, isolamento progressivo, comentários sobre inutilidade ou culpa, esmorecimento nas atividades que antes davam prazer. Tudo isso são pistas que merecem atenção e observação, mas sem causar alarde. Tudo o que a pessoa não precisa é alguém que não é da área querendo dar um diagnóstico.
  4. Nem preciso dizer da importância de incentivar a busca de ajuda profissional. Aos poucos, plante a semente de que procurar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de coragem.
  5. Por fim, trabalhe atentamente para ajudar a construir ambientes que permitam a fragilidade. Somos todos feitos de forças e vulnerabilidades, e esses números assustadores só vão começar a melhorar quando conseguirmos (nas famílias, nas empresas, nas escolas, nas igrejas) criar uma cultura que acolhe em vez de punir aquele que chora.

“Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me.”

Se você está passando por um momento difícil, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende de graça, 24 horas, pelo telefone 188 e pelo site cvv.org.br.